amanda alves de andrade e aguiar

a.guiar.amanda@hotmail.com

sinestesia escura de fundo em pano - oitavo ato

realmente, consegui pôr fim, enquanto durou, ao sedento tempo.

um fluxo de ar se atrita na lateral do meu corpo e conforta minha costas tensas.

por um cílios não abri meus olhos para ver o que se sucedia. eu poderia dar de olhos com aquela maquinaria que me fiatava com os olhos, todos - projetos possíveis - olhos.

todavia, a camada de ar abafado que havia se satisfeito ao me envolver, se miscigenou com o gelado que se movimentou, me secando o suor. desproteger. além, um som de engrenagem, passeado, surge em sincronia com com as batidas de ar em mim. o ar que percorre minhas orelhas somaram um sonido percussivo, monótono e enlouquecedor.

agora lembro maresia. luta operária...

a tentação em abrir os olhos - lê-se ansiedade, instinto bruto de auto-proteção e segurança, talvez confirmação do já sabido - é grande quanto a profundidade da sensação de esteira.

deixo-me levar, estática. não tenho o que fazer.

algumas memórias foram esticadas, e por comando desorientado, quebro o movimento de ré e me ponho a manter-me em pé, no mesmo lugar e no mesmo movimento. o referencial que escolhe.

olhos fechados, correndo, pela mesma ilusão de óptica.

acelero. vou chegar até a parede que destruí. quando bater o nariz nela, andarei sem ver. vou abrí-la e zombar do relógio. vou fiar chateando-o sempre que ele vier avançar e fazer-me subir nas canelas.

vou.

estou indo.

não chega...

som de freio...

de engenhoca se desacelerando...

pára.


(início - primeiro ato)

sinestesia escura de fundo em pano - sétimo ato

qualquer algum pode transpôr a parede. ela é transponível. é só querer. o problema é que o relógio comum quer me encaixar no XII para fecharmos o ciclo. sem mim, ele não acaba meu dia e estende o último segundo para me esperar.

eu não quero, não posso, não quero por não poder virar doce.

eu fecho meus olhos. o que antes era face branca e leitosa, com um relógio fajuto grudado à superfiície, hipnotizando, molda-se numa nova parede preta, sem vértice, aresta ou ruga.
pelo visto, só mudou a palma da frente. eu não vou olhar para os lados e para o chão/teto para conferir no que resultou a mudança brusca de onda. mesmo porque agora não há conceito de lado.

meus pés já tocam quase completamente a superfície, e eles relaxam, como concha de calcário que adere facilmente às paredes do perdão...

sinestesia escura de fundo em pano - sexto ato

vou tratá-lo como um cão. como o que me vem acelerando e desacelerando, da platéia até a barreira que este vidro de fumaça agressiva formou.

eu vou tratá-lo de longe... cuidado à distância, e assim, cativando meu inimigo, ele vai embora, desapegado e displicente.

desse jeito, o relógio contínuo, periódico, clemente às leis, possui o cão, ocupa-o. em posse, nas mãos do relógio, o cão é posto no lugar do número II...

- agora são cão horas e treze minutos.

milk - terceira parte

capítulo dois

eu tenho receio de estar assim tão vulnerável. sem nada a me pressionar, apertar, sobra espaço para mais de um...

aqui me é familiar. parece com quando eu me agarrava à saia de alguém e apertava os olhos, assim!...

só consigo me lembrar dessa situação que se assemelhe. então claro que semelhança é miragem. que besteira crer eu num retorno à aqui.

eu devia ter trago uma fita adesiva. agora não sei com o que cercar minhas beiradas e nem com o que me embaraçar.

hum... meu cadarço.

o que é prioritário proteger? meu cabelos. vou fazer uma trancinha e amarrá-la com o cadarço.

eu precisava de um espelho e de um pente. sei trançar sem ver, mas minha franja deve estar torta...



e o outro? é complicado escolher uma seção só e suficiente pequena e vital para eu envolver com meu último cordão.

vou esperar que alguma parte se manifeste. funciona por ordem de chegada...



meus dedos continuam tortos e ainda tenho aquela verruga no dedo mindinho da mão esquerda. as unhas da mão direita estão maiores que as da outra; meu indicador direito tem a unha menor que os outros dedos dessa mão; meu polegar não tem o suficiente para tocar bem e a respeito das unhas esquerdas, nada a objetar...



não passou muito tempo desde que quebrei a unha. então... não faz muito tempo que estou aqui.

na verdade, eu que quero acreditar que eu esteja aqui recentemente, que tudo é novo, e que tenho o direito de me assustar.

e na verdade, sei do conhecimento desse lugar a muito e a muito sei do quanto desconheço cá, que deveria ser a riviera mais milimetrada e tateada por minha mãos...



o que não consigo suportar é a ideia de que ainda sei tão pouco, de que ainda desconheço pouco, porque para se desconhecer é preciso saber a primeira linha do que se está por vir, do que está prestes a não se conhecer, a ler. como saber se desconheço se nem sei o título?

- aqui, o que desconhece? ah, você não sabe o nome... é, não conheceu para, ao menos, deixar de conhecer...



então classifico o que não sei o nome como resto. e o resto é muito. não é pouco. falta pouco. eu me perco nesse resto, que fica tocando leve minha face, meus cotovelos, minhas costas e a sola dos meus pés. eu não quero olhar para ele. não quero medi-lo. mas eu queria sabê-lo.



que desonra vir aqui frequentemente e ainda ser novata! que vergonha vir aqui e ainda sentir sono...

milk - segunda parte

capítulo um


- mãe, boa noite.

- boa noite. durma com deus. não esquece de trancar a porta da sua varanda e de ligar o alarme.

- ta.

milk - primeira parte

capítulo três


estou num lugar. é, acho que é um lugar. pelo menos isso posso afirmar. há de ser algum lugar! não sei seu início, seu fim, ou se os tem, mas é um espaço.


sinto o vento forte. se está seguro? suponho ele ter tido espaço para pegar impulso. é... é enorme.


prefiro estar num bueiro, numa caixa de sapatos, numa canela a estar num ensejo aberto assim.

esquecido

até parece que não é você naquele retrato
que guardo em cima de um maço de poesias
que eu ainda não fiz

ainda não me perguntei
porque guardo águas de outros verões
como um ano mal resolvido
acabado em outubro
com seu último capítulo não lido.

before the sky

look that plane on the sea
you've never seen it before

look that plane on the street
look that plane between the trees

i know you're much old
to believe me again

put your own glass
it's not a joke
you can see the plane under my boat

see with your own eyes

you can see the kids in the sea
you see your own leg in the sea.

blue body blues

my heart is bleeding like an open tap
i feel so alone in this sincity
my heart is open like an open window
my heart is open like the bitch's belly


i'm queen of the beat
feel the flow, strong and slow flow
feel the smell of my skin
i walk like a lame
you don't dance
what a shame

i walk rolling
i dance slow
my heart is bleeding
i didn't want to tell you
but i miss you so

my heart is bleeding like an open tap
my heart is beating like a client knocks on my door
my heart is hungry like my siamese brother
my heart is opened like the whorehouse door

my heart is bleeding like an open tap
my heart is beating like a client call
my heart is hungry like my siamese brother
my heart is open like the door of my house

my hips roll
and wet my lips say
i miss you so
since you've been gone, there's no day.

série o surgimento da sociedade e do estado - quarta via

fui expulsa do meu país.

enquanto me linxavam, uma formiguinha acorrentada era condenada do meu lado.

fiquei sabendo que eu a expulsara por auto cura a por felicidade.

a rainha e a expurgada eram desnacionalizadas de suas criações. a rainha, de sua mocidade; a formiga era privada de suas emoções.

sem protestos atrás e já fora do condado eu e ela nos encontrávamos entre dois reinos, mas sem estar em nenhum.

peguei-a no dedo e sem pedir perdão, enfiei-na no furo do meu calcanhar. penetrou com cuidado a ferida e cicatrizou por onde caminhou.

agora, toda vez que ela percorre minha posse, me fazendo cócegas indecentes, e às vezes inocentes, pego a caneta.

semibreve

meu nome é amanda alves de andrade e aguiar, sou campineira e tenho 16 anos. componho e desenho conscientemente desde os 13, quando iniciei meus estudos de violão erudito. escrevo poesias desde os 14. comecei a estudar piano em agosto de 2009 e fiz aulas de canto por um ano. fiz teatro durante cinco anos, com apresentações em campinas e em divinópolis. gosto de falar sobre tudo, com as pessoas certas. já expus meus trabalhos duas vezes esse ano. sou spalla da orquestra de violões de divinópolis. amo ballet clássico e moderno. gosto do corpo humano, dos movimentos, da dança e da expressão motora e mecânica. eu não acredito em deus, nem em algum. eu acredito em mim.





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